A toalha passa pelos seus olhos antes de ir para o seu cabelo. Esfrega-o com força a mais, o seu cabelo sempre foi forte mas após a lavagem fica sempre frágil. A toalha volta a passar pelos seus olhos. Acordou minutos antes, não dormiu muito mas dormirá nesta tarde. Quando o vulto laranja da toalha passa, apercebe-se de que algo mudou. A certeza de tal facto começa a apoderar-se dele, espera antes de fazer qualquer coisa, quer certificar-se de que não é apenas um humor passageiro. Mais uma das suas vontades, mais um dos seus dramas, mais uma emoção fingida.
Hoje é o dia. Sabe-lo agora. Hoje é o dia em que toda uma existência deixa de ser espiralada para passar a ser recta. Hoje é o dia em que deixa tudo para trás, o bom e o mau. O passado e o presente. Hoje é o dia em que o esquece. Em que toda a dor que foi acumulando e acarinhando será aniquilada. Sabe-lo agora, após a toalha passar pelos seus olhos.
Continua o acto metódico de secar o cabelo, seca o corpo também e veste-se. Está pronto. Neste dia, de todos os dias, tão normal como todos os outros. Tão aborrecido como todos os outros. Tão fatal como qualquer outro. Hoje é o dia.
Rasga as cartas e deita-as para a fogueira. Com elas vão as fotografias. Ardem numa fogueira de fogo e dor. Ele não chora. Apenas olha para os vários papéis que ardem e pensa em tudo o que está a arder com eles. Hoje é o dia em que o deixa para trás.
Quando acaba, sente-se renovado. Não exactamente feliz. Ainda é cedo para isso. Mas sabe que hoje, neste dia de todos os dias, a possibilidade de ser feliz existe outra vez.














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"Things have dropped from me. I have outlived certain desires; I have lost friends, some by death... others through sheer inability to cross the street." - Virginia Woolf
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